Carlos Maximiliano Fayet (1930-2007)

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O PRIMEIRO ESTÁGIO em escritório de arquitetura a gente nunca esquece. Era 1994 e eu, recém dispensado da minha primeira experiência “pré-profissional”, como desenhista em uma fábrica de móveis lá depois do aeroporto, fui convidado por alguns colegas da faculdade a integrar a equipe de um escritório de arquitetura. Como estava parado, topei na hora. O escritório ficava no alto de um edifício antigo de frente para o largo dos açorianos, de onde se via, além de parte da zona sul de Porto Alegre, as frentes frias vindas da argentina, que faziam sumir aos poucos a cidade praqueles lados entre a chuva, antes que caíssem os primeiros pingos e fôssemos obrigados a fechar as portas da sacada.

O trabalho, que poderia parecer maçante, incluía freqüentes idas ao bairro do IAPI, no qual ficávamos, em cada visita, encarregados de determinadas faces de determinados quarteirões, sobre cujas elevações originais atualizávamos, a mão e a olho, modificações feitas pelos proprietários dos imóveis. Estes nos recebiam com as mais variadas reações. Muitos reclamavam da prefeitura, outros eram curiosos, em especial as crianças. As modificações anotadas com a pentel 0,9mm amarelinha sobre as malcheirosas cópias heliográficas iam depois, na volta para o escritório, para o papel vegetal, com nanquim, sem prescindir da companhia indispensável da boa e velha gilette. Computador? haviam dois, provavelmente dois 486, ficavam numa salinha, rodavam AutoCAD 12 para DOS, onde trabalhavam dois arquitetos e um estagiário, que tinham status de semideuses. Ninguém sabia ao certo o que se fazia ali. Mas sabia-se que era importante.

Esse trabalho árduo de campo, levantamento sob o escaldante sol do verão porto-alegrense, o fazíamos (eu e os outros 11 estagiários-desenhistas) com gosto, alegria e dedicação. E fazíamos assim porque gostávamos, estavamos ali, a maioria em início de curso, descobrindo a arquitetura de verdade, como ofício. O dia-a-dia de um escritório, sua organização, funcionamento… tudo era novo. Mas fazíamos assim também porque uma figura em especial nos inspirava a fazer assim. Tinha sempre um sorriso, uma palavra amiga, um tom ameno, mesmo quando nos corrigia e mostrava o jeito certo de fazer as coisas. Uma figura que, às vezes, colocava o projetor na mesa nos finais de tarde e passava slides de obras (suas e dos outros), de viagens, de obras de arte, da vida, comentando sobre eles… e ali ficávamos a ouvir, freqüentemente perdendo a hora, só nos dando conta de que era hora de ir quando já estava escuro. Tanto conhecimento precioso… e ainda ganhávamos bolsa-auxílio do CIEE!

Uma figura que mostrava seu lado mais humano nas horas mais inesperadas. Certa vez, discutiu com uma arquiteta da equipe e saiu porta afora. Em seguida, saímos todos, arquitetos e estagiários, rumo ao Praia de Belas Shopping para almoçar. Quando estávamos todos aglomerados ao redor de uma mesinha redonda, eis que surge “o chefe”, de gravata, com sua bandeja de almoço pedindo um espaço (isso a segundos de começarmos a falar mal dele e mostrar solidariedade com a colega com quem havia discutido). O assunto mudou instantaneamente para amenidades e ele, lá pelas tantas, solta aquela piada imprópria sobre a velhice que dispara uma gargalhada geral na mesa, ecoando em toda a praça de alimentação. Quando estas mal haviam cessado, ele olha nos olhos da colega e lhe pede desculpas, em alto e bom som, em frente a toda a sua equipe, inclusive aos soldados-rasos como eu, que, por força das cicunstâncias do trabalho, raramente privavam de sua companhia e atenção, mas sempre tiveram seu respeito. Poucas vezes na vida testemunhei tamanha prova de dignidade.

Assim tive o privilégio de conhecer Carlos Maximiliano Fayet. Embora minha passagem por seu escritório tenha sido breve, certamente foi marcante e sem dúvida nenhuma ajudou a consolidar minha paixão pela arquitetura. Minha última lembrança dele, felizmente, será a melhor possível: A do dia em que acompanhei, junto a uma pequena multidão de colegas, colaboradores, curiosos, cães e gatos, espalhados pela Praça da Matriz, a complexa colocação da estátua (de sua autoria) na parede do Palácio da Justiça, prevista em seu projeto original mas só providenciada quando da recente reforma do edifício. Nesse dia, vi em seus olhos um entusiasmo de menino, o mesmo com o qual sempre conduziu sua carreira e que sempre contagiou a todos à sua volta.

Poderia discorrer aqui sobre a obra do Fayet (como todos o conhecíamos), sobre sua importância para a arquitetura gaúcha e brasileira, tanto no âmbito acadêmico como profissional, sobre o quanto ele lutou, dentro e fora de nossas entidades de classe para que o ofício de arquiteto fosse difundido, reconhecido e valorizado, mas isso não faltará quem faça. O Blog é autoral. Minha forma humilde de homenageá-lo em sua partida é deixar aqui, ilustrado por algumas passagens marcantes, um pequeno relato de como era o Fayet que conheci. Embora sua perda seja irreparável, seu exemplo perdura e há de inspirar a todos nós, arquitetos.

2 respostas para “ Carlos Maximiliano Fayet (1930-2007) ”

  1. luciano disse:

    Gabriel, lindo texto cara, lindo texto!!!

    Não tive a oportunidade de trabalhar com o “seu” Carlos Maximiliano, mas tive a grata oportunidade de compartilhar de vários bons momentos com ele.

    Ele era um grande amigo do meu pai, eram colegas de CREA, viajaram juntos pelo Brasil, diviriam hotel por aí… e eu não fazia nem idéia quem era aquele “tio” magro e alto que volta e meia nos visitava… até que um dia eu bati com acordei arquiteto e descobri que o amigo do pai era o Fayet…

    A última vez que eu o encontrei foi em novembro em um seminário na PUC sobre a obra do Eládio Dieste, no qual durante uma provocativa apresentação do Hugo Segawa sobre obras em alvenaria de tijolos de barro pela américa latina, o Fayet começou a se inquietar na cadeira… quando o Segawa terminou sua palestra repleta de obras pós-modernas -motivo da inquietação- o Fayet se levanta, pega o microfone e diz “isso que tu mostrastes eu não sei o que é, mas não é arquitetura…”

    Por essas e por outras que hoje o sentimento é forte.

  2. Luciana Pagliosa disse:

    Gabriel, o texto é maravilho!

    Pode ter certeza que suas palavras emocionam todos àqueles que o conheceram e também àqueles que não tiveram esta maravilhosa oportunidade!.

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