Luna de Avellaneda

17 de Abril de 2007 @ 18:15 por Gabriel

Ei, você que deu um tempo no CAD ou na prancheta e está aí sentado, vendo esses filmes americanos cada vez mais iguais e repetitivos, dê uma pulo em uma (boa) locadora e pegue, em DVD, “Clube da Lua”(”Luna de Avellaneda”, Argentina, 2006). Eu recomendo.

A equipe e elenco repete vários nomes do bom “O Filho da Noiva” (2001), nessa história comovente sobre os descendentes dos fundadores de um clube social e cultural no outrora próspero subúrbio industrial de Avellaneda, em Buenos Aires, que se deparam com um doloroso dilema: Arcar com dívidas e multas astronômicas ou ceder ao assédio e vender o clube para um grupo que pretende transformá-lo num cassino? Filme simples e bonito, sobre gente simples e a derrocada de um sonho frente às voltas que a vida dá, e retrato de uma sociedade que, se em parte se recupera do baque econômico de anos atrás, ainda tem cicatrizes que demorarão a curar.

Além disso, “Clube da Lua” prova que, como uma boa safra de vinhos, o cinema dos nossos vizinhos argentinos está bom como nunca… vale a pena provar e valorizar.

Luna - Luna

Ricardo Darín (sempre ele), uma espécie de “coringa” do cinema argentino contemporâneo, estrela “Clube da Lua”.

Site Oficial: www.lunadeavellaneda.com

Carlos Maximiliano Fayet (1930-2007)

20 de Março de 2007 @ 13:02 por Gabriel

Fayet2 - Fayet2

O PRIMEIRO ESTÁGIO em escritório de arquitetura a gente nunca esquece. Era 1994 e eu, recém dispensado da minha primeira experiência “pré-profissional”, como desenhista em uma fábrica de móveis lá depois do aeroporto, fui convidado por alguns colegas da faculdade a integrar a equipe de um escritório de arquitetura. Como estava parado, topei na hora. O escritório ficava no alto de um edifício antigo de frente para o largo dos açorianos, de onde se via, além de parte da zona sul de Porto Alegre, as frentes frias vindas da argentina, que faziam sumir aos poucos a cidade praqueles lados entre a chuva, antes que caíssem os primeiros pingos e fôssemos obrigados a fechar as portas da sacada.

O trabalho, que poderia parecer maçante, incluía freqüentes idas ao bairro do IAPI, no qual ficávamos, em cada visita, encarregados de determinadas faces de determinados quarteirões, sobre cujas elevações originais atualizávamos, a mão e a olho, modificações feitas pelos proprietários dos imóveis. Estes nos recebiam com as mais variadas reações. Muitos reclamavam da prefeitura, outros eram curiosos, em especial as crianças. As modificações anotadas com a pentel 0,9mm amarelinha sobre as malcheirosas cópias heliográficas iam depois, na volta para o escritório, para o papel vegetal, com nanquim, sem prescindir da companhia indispensável da boa e velha gilette. Computador? haviam dois, provavelmente dois 486, ficavam numa salinha, rodavam AutoCAD 12 para DOS, onde trabalhavam dois arquitetos e um estagiário, que tinham status de semideuses. Ninguém sabia ao certo o que se fazia ali. Mas sabia-se que era importante.

Esse trabalho árduo de campo, levantamento sob o escaldante sol do verão porto-alegrense, o fazíamos (eu e os outros 11 estagiários-desenhistas) com gosto, alegria e dedicação. E fazíamos assim porque gostávamos, estavamos ali, a maioria em início de curso, descobrindo a arquitetura de verdade, como ofício. O dia-a-dia de um escritório, sua organização, funcionamento… tudo era novo. Mas fazíamos assim também porque uma figura em especial nos inspirava a fazer assim. Tinha sempre um sorriso, uma palavra amiga, um tom ameno, mesmo quando nos corrigia e mostrava o jeito certo de fazer as coisas. Uma figura que, às vezes, colocava o projetor na mesa nos finais de tarde e passava slides de obras (suas e dos outros), de viagens, de obras de arte, da vida, comentando sobre eles… e ali ficávamos a ouvir, freqüentemente perdendo a hora, só nos dando conta de que era hora de ir quando já estava escuro. Tanto conhecimento precioso… e ainda ganhávamos bolsa-auxílio do CIEE!

Uma figura que mostrava seu lado mais humano nas horas mais inesperadas. Certa vez, discutiu com uma arquiteta da equipe e saiu porta afora. Em seguida, saímos todos, arquitetos e estagiários, rumo ao Praia de Belas Shopping para almoçar. Quando estávamos todos aglomerados ao redor de uma mesinha redonda, eis que surge “o chefe”, de gravata, com sua bandeja de almoço pedindo um espaço (isso a segundos de começarmos a falar mal dele e mostrar solidariedade com a colega com quem havia discutido). O assunto mudou instantaneamente para amenidades e ele, lá pelas tantas, solta aquela piada imprópria sobre a velhice que dispara uma gargalhada geral na mesa, ecoando em toda a praça de alimentação. Quando estas mal haviam cessado, ele olha nos olhos da colega e lhe pede desculpas, em alto e bom som, em frente a toda a sua equipe, inclusive aos soldados-rasos como eu, que, por força das cicunstâncias do trabalho, raramente privavam de sua companhia e atenção, mas sempre tiveram seu respeito. Poucas vezes na vida testemunhei tamanha prova de dignidade.

Assim tive o privilégio de conhecer Carlos Maximiliano Fayet. Embora minha passagem por seu escritório tenha sido breve, certamente foi marcante e sem dúvida nenhuma ajudou a consolidar minha paixão pela arquitetura. Minha última lembrança dele, felizmente, será a melhor possível: A do dia em que acompanhei, junto a uma pequena multidão de colegas, colaboradores, curiosos, cães e gatos, espalhados pela Praça da Matriz, a complexa colocação da estátua (de sua autoria) na parede do Palácio da Justiça, prevista em seu projeto original mas só providenciada quando da recente reforma do edifício. Nesse dia, vi em seus olhos um entusiasmo de menino, o mesmo com o qual sempre conduziu sua carreira e que sempre contagiou a todos à sua volta.

Poderia discorrer aqui sobre a obra do Fayet (como todos o conhecíamos), sobre sua importância para a arquitetura gaúcha e brasileira, tanto no âmbito acadêmico como profissional, sobre o quanto ele lutou, dentro e fora de nossas entidades de classe para que o ofício de arquiteto fosse difundido, reconhecido e valorizado, mas isso não faltará quem faça. O Blog é autoral. Minha forma humilde de homenageá-lo em sua partida é deixar aqui, ilustrado por algumas passagens marcantes, um pequeno relato de como era o Fayet que conheci. Embora sua perda seja irreparável, seu exemplo perdura e há de inspirar a todos nós, arquitetos.

Pavimento Tipo Já Era…

18 de Março de 2007 @ 18:41 por Gabriel

Lembra aquilo que você sempre quis fazer na faculdade e os professores de projeto nunca deixaram? Misturar 300 tipos diferentes de apartamento num edifício só? Lembra que eles costumavam dizer que o mercado “rejeitaria”, não ia vender, blá, blá, blá? Pois é:

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Novo empreendimento na Av. Nilo Peçanha (aquele dos bonecos pendurados no tapume, que deixou todo mundo curioso). Base comercial, área condominial enorme, com vários serviços, uma infinidade (mesmo, não é parede pra lá, parede pra cá) de opções de plantas… vou deixar minha opinião aqui logo, antes que as “esquerdas” comecem a criticar: barato não vai ser, mas confesso que achei bonito, honesto… Pelo menos, não é neoclássico. Lembrei do meu TFG, o prédio em leve curva, acompanhando a rua e configurando a elevação da quadra… Embora o meu fosse num bairro mais “pé sujo”, dá pra fazer uma analogia. Legalzinho. E tudo bem que o perfil sócio-econômico do público alvo é um só, mas que os diversos tipos de apartamentos vão levar fatalmente à uma população mais heterogênea, com certeza vão… vamos ver no que vai dar. Eu aposto que funciona. E vende.

Pra saber mais: www.parigi.com.br